“Nunca fui ‘cult’”

Marisa Monte refuta os que a acusam de ceder à sonoridade fácil e se popularizar demais em seu novo disco. “Sempre cantei para muitos”, diz a intérprete, que está percorrendo o país com o show “Verdade uma Ilusão”
por Armando Antenore


“Sono/ Come tu mi vuoi/ Ti amo/ Come non ho amato mai…”Quando Marisa Monte entoou os versos iniciais da antiga canção, um jovem de camisa social comentou com a moça do lado: “Que coragem a dela, não? Arriscar-se em italiano…” Estávamos no HSBC Brasil, casa paulistana de espetáculos, e já escutáramos 13 das 24 composições que a artista carioca havia programado para a noite, a nona da turnêVerdade uma Ilusão. Quem nasceu em São Paulo certamente pescará o que o rapaz pretendia dizer com a observação. Parte da cidade associa o cancioneiro italiano à cafonice – um vício oriundo, talvez, da época em que a elite, herdeira dos bandeirantes e dos primeiros colonizadores, discriminava os imigrantes europeus, não raro paupérrimos e iletrados. No entanto, à semelhança de 007, Marisa parece ter permissão para matar. Trajando um vestido branco muito justo e elegante, não poupou meneios de corpo e gestos sensuais enquanto passeava pela letra de estrofes bastante simples. “Eu sou/ Do jeito que você me quer/ Te amo/ Como jamais amei”, repetia, ainda em italiano, sob o amparo de violão, guitarra, baixo, bateria, teclado e um efusivo quarteto de cordas. Tão logo a música terminou, os espectadores que lotavam o HSBC aplaudiram fervorosamente. Aquilo que, para certos ouvintes, corria o risco de soar piegas ou clichê acabou não despertando ali a menor rejeição.Sono Come Tu Mi Vuoifez sucesso há pouco mais de quatro décadas na voz de MinaMazzini, uma lenda entre as cantoras da Itália. Marisa não garimpou a composição à toa. Com 19 anos (hoje tem 45), morou durante 11 meses em Roma, onde estudou canto lírico e se aprimorou no idioma local, que até então arranhava. À época, Mina já abandonara os palcos, ainda que continuasse idolatrada pelos fãs. Precursora do rock no país, migrou para as baladas românticas e ganhou fama de “mulher moderna”, principalmente depois de namorar um ator casado e engravidar dele. Em agosto de 1978, renunciou às aparições públicas, mas nunca deixou de gravar.

Seu hit, embora presente no show, não integra o oitavo e novo álbum solo de Marisa,O que Você Quer Saber de Verdade. Mesmo assim, retrata bem o espírito do CD, lançado em outubro de 2011 e carro-chefe da turnê que começou em junho. É, afinal, uma canção de apelo popular, como as 14 do disco (a maioria assinada pela diva com os amigos de praxe) e como inúmeras das que interpreta desde 1987, quando estreou profissionalmente. Numa atitude que lembra a dos tropicalistas, a cantora se notabilizou por cortejar tanto os gêneros afinados com o gosto do povão quanto a “alta” MPB e o rock de pedigree. Teceu, dessa maneira, um estilo híbrido e muito peculiar – um pop à brasileira que costuma agradar gregos e troianos. Pegue a Velha Guarda da Portela, adicione uma colher de Nando Reis e outra de Arnaldo Antunes, acrescente fatias de Lou Reed e George Harrison, polvilhe tudo com Tim Maia e, em seguida, aqueça a mistura no fogo nada brando de Luiz Gonzaga, Jorge Ben Jor e Carlinhos Brown. Está pronta a iguaria que Marisa vem servindo há 25 anos.

Desta vez, porém, uma parcela da crítica avalia que a receita desandou. EmO que Você Quer Saber de Verdade, argumentam os descontentes, a balança pendeu demais para o popularesco. O álbum, sob tal ótica, resultou desastroso. As letras ecoariam mensagens previsíveis de autoajuda e a sonoridade ora remeteria à dos sertanejos universitários, ora dialogaria com a de Roberto Carlos na fase motel. Ocultteria virado brega, como apontou Luís Antônio Giron, da revistaÉpoca.

Por maiores que sejam, os bombardeios demonstram não afugentar os admiradores habituais de Marisa. Em menos de um ano, o disco vendeu 160 mil cópias – desempenho expressivo quando se considera queUniverso ao Meu RedoreInfinito Particular, ambos de 2006, venderam até agora, respectivamente, 298 mil e 365 mil unidades. A turnê também ostenta números robustos. Entre 1º de junho e meados de julho, 45 mil pessoas a prestigiaram em três cidades: Curitiba, Porto Alegre e São Paulo. Foram 15 shows apenas na capital paulista, sempre abarrotados de gente. A metrópole ainda abrigará, no mínimo, outros seis a partir do fim de setembro. E o Rio de Janeiro receberá o total de 13 apresentações. De novembro em diante, o espetáculo vai circular pelo resto do país e pelo mundo.

Se o álbum divide opiniões,Verdade uma Ilusãocoleciona elogios e, novamente segundo a crítica, reequilibra a cantora na corda bamba da sofisticação com pitadas de classe C. O show – que abdica de patrocínios, coisa rara na atualidade – revela-se de fato impecável. Há quem o classifique como o melhor da carreira de Marisa graças sobretudo às invenções visuais. Seis telas, dispostas em diferentes áreas do palco, exibem vídeos, fotos e palavras o tempo inteiro. Engendram, assim, um hipnótico e gigantesco caleidoscópio, que envolve a intérprete e os nove músicos, incluindo os três importados da Nação Zumbi (Dengue, Pupillo e Lúcio Maia). As cenas, nunca literais em relação às músicas que as acompanham, são extraídas de obras criadas por 15 artistas brasileiros contemporâneos. O time de peso abarca nomes como Tunga, Luiz Zerbini, José Damasceno, Cao Guimarães, Marilá Dardot, Rivane Neuenschwander e Janaína Tschäpe. Para gerenciar a profusão de imagens, o coletivo Emotique, de Barcelona, desenvolveu um software especial. O grupo de engenheiros e programadores possui experiência no ramo. Já instalou sistemas do tipo no festival multimídia Sónar e na Fundação Joan Miró.

Em julho, Marisa conversou com BRAVO!por duas horas e meia. Ela própria escolheu o ponto de encontro: o Instituto Moreira Salles, um belíssimo casarão de traços modernistas no Alto da Gávea, Zona Sul do Rio. Preferiu sentar-se ao ar livre, perto da piscina e sob algumas árvores. Cinco semanas depois, desembarcaria em Londres para encerrar a Olimpíada, cantando o samba Aquele Abraçoe uma ária das Bachianas. Estaria caracterizada de Iemanjá.

 

BRAVO!: Numa reportagem recente, você definiu seu novo álbum como existencialista. Confesso que não entendi. Quais trechos do disco espelhariam ideias de Jean Paul Sartre e outros filósofos que conceituaram o existencialismo?

Marisa Monte:Pensando bem, a palavra mais adequada é “existencial”, e não “existencialista”. Tentei produzir um CD que reflete sobre a existência, sobre como desfrutar o máximo de nossa passagem pela Terra. Afinal, estamos aqui por uma temporada apenas. As canções do álbum, no fundo, pretendem jogar para o público uma indagação: e quando a viagem terminar? E quando você chegar lá na frente? Poderá observar o caminho percorrido e concluir que o aproveitou? Sob o coloquialismo e a simplicidade de cada letra, há questões complexas, muito profundas. Já declarei antes e repito agora: o disco trata do “bem-viver” mais que propriamente do “viver”. “Hoje eu não saio, não/ Não troco meu sofá por nada, meu bem/ Hoje eu não saio, não/ Não quero ver a multidão”, avisa uma das músicas. Outra, a que inspirou o título do CD, convida: “Vai sem direção/ Vai ser livre/ A tristeza não/ Não resiste/ Solte os seus cabelos ao vento/ Não olhe pra trás/ Ouça o barulhinho que o tempo/ No seu peito faz/ Faça sua dor dançar”. Percebe? Meu desejo é sugerir às pessoas que entrem em contato com a intuição, que identifiquem as próprias necessidades e as utilizem como guia durante a jornada, sem se influenciarem unicamente pelas vontades coletivas.

 

Os críticos que desgostaram do álbum não enxergam nenhuma profundidade nas canções.Reclamam exatamente do contrário: de que você sucumbiu às fórmulas fáceis, enchendo o disco de mensagens otimistas e banais.

Não tenho a menor pretensão de criticar a crítica. Eu comento o meu trabalho e assino embaixo. O crítico escreve o texto dele e assina embaixo. Pronto, cada um é cada um! A amizade permanece igual.(risos)Construo o que posso, o que julgo mais bacana, com imensos carinho e dedicação. Muitos se arrepiam e me agradecem: “Nossa, que coisa maravilhosa!” E há aqueles que torcem o nariz: “Negócio chato, meu Deus!” Numa boa. Não preciso seduzir a torcida do Flamengo inteira. Encantar alguns já me satisfaz. Na verdade, a opinião do público e da crítica deixou de me surpreender. Aprendi que, quando falam de mim, fãs e desafetos estão falando de si mesmos, do modo como encaram as relações, os problemas, os sonhos. Sirvo apenas de pretexto.

 

Você consegue de fato se distanciar?

Completamente! Vou levar todo mundo a sério, seja quem me adora, seja quem me odeia?

 

E você acredita nas mensagens otimistas que canta? Crê realmente que “a tristeza não resiste”, por exemplo?

Se nos mantemos em sintonia com nossos sentimentos, se nos conservamos íntegros, aumentam as chances de esbarrarmos na felicidade. Além do mais, o ser humano possui uma capacidade incrível de recuperação. Claro que certas tristezas nos abalam enormemente. Ainda assim, acho possível superá-las – não no sentido de eliminá-las, mas de transformá-las. “Faça sua dor dançar”, não é? Ou melhor: compreenda que a dor pode até continuar presente, desde que modificada. Aliás, um verso como “faça sua dor dançar” não me soa tão fácil, tão banal. Soa para você?

 

Não, não soa. Já outros… “Seja feliz”, “curta a vida”…

Pô, não vale!(risos)Você está citando os versos isoladamente, sem considerar o resto da canção. “Seja feliz/ Com seu país/ Seja feliz/ Sem raiz.” Tem umas brincadeiras, uns jogos de palavras, não tem? “Tão largo o céu/ Tão largo o mar/ Tão curta a vida/ Curta a vida.” Há duplo sentido, não há? Curtir a vida curta. Existe uma elaboração por trás da simplicidade.

 

Existe, mas talvez menor do que em discos anteriores.

Será? Suas ideias não correspondem aos fatos.(cantarola, rindo)Sempre gravei canções de letras muito simples. Pegue meu primeiro disco,MM. Trazia músicas simplíssimas, comoO Xote das Meninas.“Ela só quer/ Só pensa em namorar” é, por acaso, menos simples do que “Tão curta a vida/ Curta a vida”? ELenda das Sereias, que também integra o primeiro disco? Tem algo mais simples do que “Ela mora no mar/ Ela brinca na areia/ No balanço das ondas/ A paz, ela semeia”? Sabe o que acontece? Há uma confusão imensa entre a minha postura e o meu trabalho. Pauto-me geralmente pela discrição e me exponho na mídia apenas quando necessito divulgar um projeto. Em contrapartida, minha arte nunca abdicou de ser generosa, de ser para todos. Jamais compliquei. Gosto que me compreendam. Logo que apareci, ganhei a pecha decult. E o rótulo, curiosamente, perdura até hoje. Eu,cult?! De forma nenhuma! Nunca fuicult! Desde o início da carreira, costumo atingir muita gente. A crítica diz que faço MPB, certo? E o que significa MPB? Música popular brasileira. Popular! Esperavam o que de mim? Que compusesse exclusivamente canções para tocar em piano-bar? Sinto-me tão popular quanto a Paula Fernandes ou qualquer cantor que se ligue à MPB. E desejo, sim, me comunicar com quem escuta a Paula. Qual o problema? É uma ambição condenável? Agora, longe do palco, não assumo atitudes que, de acordo com o senso comum, uma cantora popular deveria assumir. Resultado: bagunço a cabeça da galera! “Peraí, a Marisa não se comporta como uma cantora popular, mas é uma cantora popular?! Não pode!”(risos)Cara, olha só que lindo!

 

O quê?

Um tucano! Vê o rabinho dele bem ali, em cima daquela palmeira?

 

Vejo.

Não, você não está vendo!(risos)Levante-se e venha observá-lo.(Concordo em ir.)Viu? Diz que tucanos comem ovos de passarinhos. Por isso, os ornitólogos os detestam.

 

Você reconhece aves com facilidade?

Não… Mas qualquer um reconhece tucano, vai! Você já se tocou de que os pássaros são uma espécie de cantores românticos? Sério! Aves cantam o amor. Se o tucano está de olho numa tucana, procura atraí-la de que modo? Pelo canto!(risos)Sobre o que conversávamos mesmo?

Sobre o fato de você buscar a simplicidade como artista.

Não busco a simplicidade. Eu sou simples! Trata-se de uma característica minha. Coisas singelas me põem feliz: admirar um tucano, secar o cabelo no sol, fazer um tricozinho, preparar ovo mexido para meus dois filhos, caminhar, bater papo com os amigos. Não necessito de nada muito sofisticado, muito raro, muito incrível. Helicóptero, automóvel do ano, ilha não sei onde, casa de veraneio? Para quê? Vivo confortavelmente, lógico, mas sem luxos, sem excessos. Não tenho como meta acumular capital. Julgo um privilégio extrair o sustento de uma atividade que oferece beleza e emoção às pessoas. É um dos meus grandes tesouros, uma maneira linda de me colocar no mundo.

 

Você não precisa nem do sucesso?

Depende de como se entende a palavra. Sob a minha ótica, sucesso quer dizer concretização. Significa transformar ideias em realidade. Tome o caso de uma colcha. Basta confeccioná-la, tirá-la da esfera imaginária para ter sucesso. Nesse sentido, óbvio que preciso dele.

 

E se ninguém apreciar a colcha?

Paciência. Continuo tendo sucesso. O êxito não se mede pela aprovação alheia ou pelo reconhecimento financeiro.

Pensa assim por influência da contracultura, dos hippies?

Não, parece que nasci desse jeito.(risos)

 

Você está com 25 anos de carreira. Quando começou, sonhava chegar tão longe?

Não sonhava nem fazia ideia de quais estratégias abraçar para conquistar o que conquistei. Apenas gostava – e sigo gostando – de cantar. Sempre me preocupei, aliás, em cultivar o prazer no trabalho. Hoje, analisando minha trajetória, desconfio que tudo ocorreu como tinha de ser.

 

Destino?

Talvez uma combinação de destino e escolhas. Creio que cada um de nós precisa ajudar a sorte. Você pode se flagrar diante de uma predestinação bacana, mas se não tomar as decisões corretas… Desde o princípio, tentei honrar as oportunidades que pintaram. Fui responsável. Jamais me entreguei à preguiça ou à autocomplacência. Nunca aceitei a lei do mínimo esforço: “Ah, vamos produzir um disco meia boca porque ninguém irá perceber”. Em resumo: batalhei à beça. No entanto, apesar de valiosíssima, a carreira não se tornou o principal item de minha vida.

 

O que você preza mais?

A saúde, tanto a psicológica quanto a física. Doente, não estarei feliz e não conseguirei levar felicidade para ninguém.

 

Você cuida muito da saúde?

O suficiente. Não fumo, quase não bebo álcool, zelo pela alimentação e pratico exercícios com frequência. Ioga, alongamento, ginástica localizada, musculação, bicicleta, esteira… Já fiz um pouco de tudo. Busco me preservar e não gasto energia à toa, principalmente em turnês. Evito aquele papo de varar a madrugada na farra e acordar exausta para mais uma apresentação. Percebi logo cedo que a estrada pode ser bastante insalubre se o artista confundir o ofício com uma festa eterna. O público de qualquer show está ali porque quer se divertir. Então enche a cara, prolonga a noite e tal. Mas os músicos não deveriam agir de maneira idêntica, já que amanhã terão novo espetáculo e, depois de amanhã, outro. Enfim… Se não virei doidona nas últimas duas décadas, não viro mais. Minha disciplina de atleta impedirá.(risos)

 

Você é mesmo disciplinada como um atleta?

Tenho personalidade de atleta, cara! Adoro rotina, adoro cotidiano. Nada melhor do que horário para dormir, levantar, almoçar, malhar e dispersar. Invento rotinas até quando me encontro na loucura de uma turnê. Gosto de repetição, de produção em série. Vou citar outra vez o exemplo da colcha. O artesão tece diariamente cada pedacinho dela, cada quadradinho. São milhões de fragmentos, e um parece igual ao outro. Só que, no fim da tarefa, aquela porção de quadradinhos semelhantes gera algo inteiramente novo: uma colcha!

 

Compreendi agora porque o tricô a deixa tão feliz…

O tricô e o artesanato de um modo geral. Preservo o hábito de me dedicar a trabalhos manuais desde a infância.

 

Criar filhos também exige obediência à rotina.

Por isso, me julgo uma excelente mãe.(risos)Sou parceira das crianças(um menino de 9 anos e uma garota de 3, frutos de dois casamentos). Brinco sempre com elas, estudo, converso. Uma delícia! Pureza total! Super-refrescante! Depois que a caçula nasceu, decidi fazer terapia na tentativa de refletir um pouco mais sobre educação, maternidade, imposição de limites. E sobre o fato de, às vezes, por causa das viagens profissionais, me distanciar das crias.

Sente culpa?

Sinto-me como qualquer mãe que trabalha – uma advogada, uma médica ou a moça que deixa os filhos em casa para cuidar da minha. É uma questão com a qual precisamos lidar. Vou mostrando às crianças que meu afastamento momentâneo as torna mais independentes, mais maduras.

 

E os 45 anos, estão pesando?

Nem um pouco! Considero a velhice o preço justo que pagamos pela vida. O correr do relógio não me atormenta. Mesmo porque ninguém fica velho de repente. O negócio vai acontecendo devagarzinho. Dá tempo de a gente se acostumar.

 

Fonte: Bravo Online

2 thoughts on ““Nunca fui ‘cult’” – Confira a matéria completa da Revista Bravo!

  1. Isso ai, Leonardo… Nós de BH estamos ansiosos por isso. A propósito, hoje estreou um clipe bem diferente para a música Depois.

    Confiram no site da MM.

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